CRÍTICAS

nuvem 5

 

Crítica | A Dama do Mar ” por Jefferson Del Rios

O Estado de S.Paulo, quinta-feira, 23 de agosto de 2012.

“Sergio Ferrara faz de A Dama do Mar, um concerto de vidas em busca de algo além do cotidiano”

QUANDO A ILUSÃO VEM DO MAR

Apenas uma sugestão. A de se ver A Dama do Mar, de Henrik Ibsen, enredo situado na Noruega, e aqui no excepcional desempenho de Ondina Clais Castilho, como uma lenda das terras do sol da meia-noite. A sociologia surgirá naturalmente. Uma mulher bela e casada com um viúvo dedicado, pai de duas jovens, espera em segredo o retorno do verdadeiro amor que embarcou em algum navio deixando atrás de si uma história violenta. Impressiona a quantidade de episódios espectrais nas sagas nórdicas, desde as anônimas àquelas transfiguradas por escritores com Halldór Laxness, da Islândia, autor de Gente Independente, ou Frans Sillanpää, da Finlândia, com a sua Santa Miséria. Shakespeare, ao procurar tais mistérios, deixou a Inglaterra para colocar o fantasma de Hamlet nas névoas da Dinamarca. Mas um amor mal resolvido, o núcleo do drama, também cabe nas Minas Gerais do diretor Sérgio Ferrara e de Carlos Drummond dos poemas como O Padre e a Moça ou Caso do Vestido. Engenho teatral de alto teor literário nos diálogos e linear no encadeamento do entrecho.

Ibsen (1828 -1906) é um artista do século 19, embora a intensidade de sua obra permaneça vigorosa, independente das mudanças literárias. O que se pode estranhar talvez seja sua preocupação com assuntos hoje resolvidos, ou que não podem ser escamoteados por moralismo e outras conveniências. Em um dos melhores estudos que sobre ele se publicou em português, o ensaísta Otto Maria Carpeaux notou que o maior dramaturgo do período reflete as qualidades e os defeitos da época. Preocupa-se não só com as conquistas sociais e as descobertas da ciência para melhorar o mundo, como também com os dilemas que tais progressos acarretam. Para Carpeaux, as peças de Ibsen defendem o desejo de transformar a vida “em máquina que funcione bem”.

Transcorridos mais de cem anos, muito do que para um polemista indignado foram batalhas cívicas, políticas e morais em andamento, agora estão ganhas. Doenças (tuberculose e sífilis com seu componente sexual) têm cura e a emancipação da mulher é um direito ao menos nominal. Enfim, esse brilhante utópico do socialismo pré-marxista seria um pregador superado. Mas algo acontece graças ao seu poderoso fôlego poético. Carpeaux diz textualmente: “Podemos discutir todas as virtudes e defeitos do norueguês; meia hora depois de levantado o pano, tudo está esquecido, ficamos presos, impressionados, convencidos”. Porque os preconceitos, costumes, trajes, louçaria e os cristais da cena são detalhes sob os quais pairam as “angústias eternas dos homens como estes sempre foram e sempre serão”.

O diretor Sérgio Ferrara captou essa essência e de braço dado com a moça fantasma de um terceiro poema de Drummond fez de A Dama do Mar um concerto de vidas em busca de algo além do horizonte cotidiano. Há um desejo de transcendência existencial e fuga da rotina nas mulheres, seja pelo grande amor que virá de algum lugar, mesmo que da pura imaginação, seja pelo casamento sem ardor, mas com a possibilidade de diferentes paisagens. Há uma luta surda entre o que está estabelecido, seguro e banal e o que poderá ser venturoso, ainda que com perigos.

O mar como espaço livre ou naufrágio é a metáfora da peça. É preciso um elenco sutil e consistente para a travessia entre o tom simbólico e o quase melodrama de Ibsen. Conhecedor do dramaturgo, que encenou em vezes anteriores, Sérgio Ferrara reuniu uma equipe de primeira. Ondina Clais Castilho tem uma providencial beleza nórdica, vibração e técnica vocal para a alucinada dama do mar. O mesmo ocorre com Mariana Hein a enteada que deseja fugir do labirinto dos fiordes. Há um imponente antagonismo entre as duas. Na ponta final do triângulo feminino, Erika Altimeyer transmite a ambivalência entre o juvenil e a fragilidade psicológica. Não é fácil. Procurando entender esse tumulto de almas, há o quarteto masculino capitaneado por Luiz Damasceno um ator que praticamente nunca erra um desempenho.

Tem experiência a serviço do talento. Papéis entrecortados, sempre difíceis de levar adiante ganham credibilidade com Luciano Quirino, Alberis Amaral e, sobretudo Ricardo Gelli como porta-voz da atitude masculina conservadora e desconectada do real. Renato Cruz teria maior impacto se o seu aguardado marinheiro não surgisse em trajes urbanos, descalço e penteado, como num editorial de moda. É algo que se pode corrigir na rota de um espetáculo sobre a luz e a sombra dos desejos que nos atraem e assombram desde sempre.

Crítica: Jefferson del Rios

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,quando-a-ilusao-vem-do-mar,920513,0.htm)
 
 
 

Crítica | “POROROCA” porLuis Fernando Ramos (Critico da Folha)

BOA NARRATIVA GARANTE A QUALIDADE DE “POROROCA”

 O faz de conta instaurando o teatro. “ Pororoca”,texto de estréia do autor maranhense Zen Salles, resgata o princípio de que um bom espetáculo começa com uma boa história bem contada.Fruto de um projeto internacional de incentivo a novos dramaturgos, a peça corresponde às expectativas dos especialistas ingleses que a supervisionaram.Apresenta uma trama bem tecida, sem fios soltos, e que é profundamente tributária das raízes culturais e das memórias de infância de seu criador.Situada numa pequena aldeia do rio Mearim, o único do Maranhão onde acontece a pororoca – uma grande onda que corre contra o curso da correnteza – o arco de ação costura as vidas dos moradores daquela comunidade.Mais do que uma descrição, a fábula faz um inventário da condição feminina naquelas circunstâncias geográficas e sociais, bem como um resgate de algumas de suas lendas dominantes.Essas definições do dramaturgo são contempladas plenamente na encenação de Sérgio Ferrara, experiente na alternativa de alcançar a eficácia narrativa com um mínimo de recursos.Verdade que a produção tem detalhes luxuosos menos relevantes, caros aos empreendimentos institucionais.  Mas, no geral, a empatia gerada ao longo dos episódios que se concatenam se deve muito mais aos intérpretes e ao jogo estabelecido por eles no espaço exíguo da montagem, do que à cenografia e aos figurinos. No palco, os destaques são as atrizesJuçara Morais como “veia Jacy”,entidade que protege o rio e interage como oráculos dos demais personagens, e Sabrina Petraglia como a menina moleca, cujo destino inexorável será a prostituição, sustentam com competência o fio principal da narrativa.Bia Moreli, Melissa Maranhão e Carol Leiderfarb também contribuem para as verossímeis relações tramadas entre os desejos pessoais dessas mulheres e as tradições arraigadas que condicionam.Mesmo uma cena menos bem resolvida, como a que opõe um surfista do sul do país à quebradeira de coco local,justifica-se na estrutura dramática, contrastando as crenças e metificações sobre  a pororoca sua absorção em outro contexto, mais superficial.

De algum modo, como sugere a convenção dramática tradicional, o texto suplanta e submete a cena, definindo a qualidade da experiência teatral.

Zen Salles estreou com o pé direito nessa opção de dramaturgia, apresentando o que, nela, de melhor um jovem dramaturgo pode oferecer. Sua experiência de vida e a boa técnica de narrar.

 

 
 
Crítica | Os crimes do Preto Amaral porJuliene Codognotto (Revista Bacante)

Lirismo engajado Foto: Lenise Pinheiro

Ir ao Teatro Imprensa (leia-se Centro Cultural Grupo Sílvio Santos), passando antes pela porta do Teatro Oficina é uma experiência muito especial. O CCGSS é um lugar sofisticado, tão sofisticado que, em vez de fazer propaganda daquelas cantinas baratas que sempre apóiam o teatro alternativo oferecendo refeições aos artistas, expõe um belo cartaz onde lemos: “Rua Avanhandava, onde o espetáculo continua!” (eles só não comentam que, neste caso, para o espetáculo continuar é preciso gastar, em média, a módica quantia de 100 reais por pessoa!). E na fachada – que não parece estar muito de acordo com a Lei Cidade Limpa – bolinhas de Natal coloridas! Só pra completar o luxo. Uma verdadeira festa cultural.

Passado o sufoco de disputar o foyer com as muitas pessoas que lotariam a peça Hoje Eu Me Chamo Dinorá, sobramos eu e mais cinco para assistir Os Crimes do Preto Amaral, uma história que consegue ser lírica falando de eugenia, abuso sexual, crimes contra crianças e outros temas tão light quanto estes.

Antes de entrar, porém, é preciso trocar sapatos por pantufas – aquelas de médico ou de perito, branquinhas, meio transparentes. Tudo para não interferir naquele ambiente todo branco. E é todo branco mesmo: roupas, assessórios, chão, cadeiras… A partir daí, voltamos a 1927, numa bela mansão, cujos móveis estão devidamente cobertos por panos brancos, que podem simbolizar tanto a preservação da mobília, quanto a conservação dos vestígios de uma investigação criminal. Estamos de cara imersos num ambiente onde brancura e limpeza são sinônimos. Portanto, o único personagem que aparece vestido de preto (o Preto Amaral, claro!) é o símbolo da sujeira e da degeneração que era atribuída aos negros na época. Engraçado pensar que em algumas cabecinhas o termo higienização – muito recorrente na peça – até hoje tem esta conotação preconceituosa e facistóide. O projeto de “higienização do centro de São Paulo”, por exemplo, só se dá ao trabalho de substituir preconceito com a raça negra pelo preconceito com os pobres, o que, no fim das contas, acaba dando quase na mesma.

Preto Amaral, um negro que foi soldado e andarilho, filho de uma escrava, é considerado o primeiro serial killer brasileiro e assim está identificado no Museu do Crime. No entanto, o rapaz, que viveu num período em que a teoria eugenista se desenvolvia e ganhava adeptos na medicina brasileira, não teve direito a julgamento, pois faleceu antes, na delegacia, depois de sofrer muitas torturas.

Para contar essa história, a peça tem como base alguns personagens que representam não somente indivíduos, mas também opiniões deste período: o médico eugenista, a advogada humanista formada na Europa, a perua que só se importa com o Carnaval, o jornalista/artista que tem uma visão ampla, mas prefere não se envolver politicamente. Além deles, uma enfermeira que trata os “criminosos” após as torturas e tenta tranqüilizá-los, e um músico filho do médico e marido da advogada, ou seja, uma marionete que não sabe por quais mãos se deixará controlar – amor ou filiação.

As soluções cênicas são originais e impedem que a história se torne cansativa – é o caso das lâmpadas no cenário, as repetições de texto, as cenas que se sobrepõem, acontecendo no mesmo espaço, mas em tempos diferentes, etc. No entanto, a encenação não ousa em nenhum aspecto, nem radicaliza a linguagem. O que chega mais perto de radicalização é o uso do lirismo no tratamento de assuntos graves. A idéia de simbolizar as mortes com as roupas das crianças supostamente atacadas por Amaral é um exemplo disso: a mesma atriz volta como mãe de cada um dos meninos, variando apenas o sotaque e, a cada vinda, leva consigo as roupas do pequeno assassinado. Por sua vez, as crianças são representadas ora pelos próprios atores, ora por bonequinhos manipulados, evidenciando que o que está sendo contado ali é somente uma versão e não necessariamente a realidade.

Destaque para a cena em que todos os atores se tornam o primeiro menino atacado para contar, cada qual com seus trejeitos, o início da mesma história trágica.

E merece elogios, ainda, a maneira singela como a advogada ( Érika Altimeyer) mostra que, sob tortura, é possível confessar qualquer coisa. Preto Amaral, por exemplo, confessou até mesmo crimes que ocorreram enquanto ele estava detido.

No sentido de defender o direito à defesa (parece pleonasmo, mas não é!), a peça é tão engajada que no fim nos pede assinaturas em um abaixo assinado que pretende tirar Preto Amaral do Museu do Crime, já que seu suposto crime não chegou a ser julgado. Depois de colocar o tênis, eu assinei embaixo, porque até o engajamento pode ser criativo e quem sabe possa inclusive mudar alguns equívocos históricos.

Publicado em 8, October, 2007

 

 

 Crítica | Os crimes do Preto Amaral por Adriana Zimbarq (Publicado em 29.01.2007)

 A história da eugenia e os crimes do Preto Amaral 

A montagem de “Os Crimes do Preto Amaral” é uma experiência completamente nova. Você vai se encontrar no meio de uma sala de visitas, todo o ambiente é decorado em tons esbranquiçados.Quase todo o figurino é feito em branco para, provavelmente, não destoar

esteticamente com o tema da peça. O Preto Amaral quebra esse figurino harmônico, aparecendo inteiramente vestido de preto, fato que pode ter sido usado para enfatizar a diferença e a contradição que foi encontrada pelo negro na sociedade dessa época.Também podemos interpretar a utilização das cores seguindo o efeito psicológico que elas têm sobre as pessoas: a cor branca chama a atenção para a pureza, limpeza e sofisticação, ao mesmo tempo a mente humana atribui à cor preta idéias sinistras, geralmente relacionadas com a morbidez e pecado.

O ambiente do teatro ao mesmo tempo em que te fará sentir confortável, vai te causar “frio na espinha”. O fato de a história ser uma mescla de um romance mitológico com fatos baseados na realidade de um homem negro (baseada na tese de doutorado de Paulo Fernando de Souza Campos) contra uma sociedade racista e discriminatória do Brasil na década de 20 faz com que essa história que está sendo apresentada em passo rápido, mexa muito com as sua idéia de teatro interativo. Não que a platéia seja convidada a participar da peça, porém prepare-se para sair do espetáculo se sentindo cúmplice dessa trama.
Provavelmente um dos fatores que ajudam essa peça a entrar pelas veias do expectador se deve ao fato de que a principal música da trilha sonora ser muito conhecida e amada por nós brasileiros. Além de ser tocada ao vivo por um conjunto de músicos, em certos momentos ela e cantada e tocada por dois dos atores protagonistas.
A história da peça e os diálogos foram escritos pelo diretor Paulo Faria. Muito mais que um ótimo diretor, ele tem uma sensibilidade enorme para lidar com a crítica social.

Entre vários outros méritos, um que não devemos deixar de citar é a qualidade dos atores selecionados para fazer parte da “Cia. Pessoal do Faroeste”. Seria injusto e imperdoável citar apenas o nome de um dos atores, sendo que todos têm uma participação fundamental para a obra que, por nós, é considerada uma das melhores peças teatrais do ano de 2006. 

 

 

Crítica | Amor e Restos Humanos por Valmir Junior  (Revista Bacante de 22 de janeiro de 2008)

Love is NOT in the air     Foto: Águeda Amaral

Amor e restos humanos 1

Amor: aquele assunto que todo mundo acha que pode discutir, mas na verdade ninguém sabe ao certo o que é. Mais ou menos igual ao assunto Deus. Somos todos PhDs da relação amorosa. Qualquer um pode discutir se pensa ser “inteligente” o bastante para dizer que o amor é assim, assado, virado ou ensopado ou até mesmo que ele… não existe.

Este é o pensamento do garçom Davi, outrora um ator de televisão, personagem principal da comédia dramática Amor e Restos Humanos, do canadense Brad Fraser. Originalmente, a peça se chama Restos Humanos Não-Identificados Ou A Verdadeira Natureza do Amor, mas Fraser, ao adaptar para o cinema sua peça, transformou o roteiro e condensou o nome, emprestado pela montagem dirigida por Marco Antônio Pâmio. Aliás, o roteiro de cinema virou filme dirigido por Denys Arcand, mesmo diretor de O Declínio do Império Americano, Invasões Bárbaras e do favorito ao Oscar A Era da Inocência.

Davi (Alexandre Cruz), o garçom-ator, é um homossexual desacreditado do amor. Suas relações são efêmeras, mais ou menos como se constata nos guetos gays das grandes cidades. Basta sexo, um punhado de amigos que substituam a família (Davi nunca menciona pai ou mãe e não sabemos nem de onde ele veio) e um trabalho que propicie a vida regada a hedonismo e “alegria eterna” (o termo gay quer dizer alegre em inglês e se refere a um estilo de vida homossexual, esse mesmo que acabei de descrever). A “família” do momento atende pelo nome Carla (Sílvia Suzy), a amiga e ex-namorada com quem ele divide o apartamento. Por ser solteira, Davi acredita que os problemas de Carla se resolverão após umas boas trepadas (o mesmo conselho que amigas solteironas dariam a uma amiga estressada) e Carla resolve se aventurar tanto com o amor entre iguais, como com o amor com o outro sexo, para tentar se encontrar.

Este fio central se engambela com uma história de assassinatos – um serial killer espreita a cidade – e com outras histórias de casais que se foram, casais recém-formados e presenças que se bastam, como a drag queen-travesti-transexual Benita (Lívia Guerra). A partir do fio condutor, a espiral de sexo, drogas, fracassos amorosos e desencontros começa a girar, e o texto conduz a cena de forma muito orgânica, intercalando momentos cômicos com outros muito dramáticos. Fraser consegue fazer as frases de cada personagem se resumirem a uma ou duas palavras, muitas vezes nomes, ações ou substantivos: são os tais restos humanos. O diálogo se resume e não consegue transformar-se em comunicação efetiva. Tanto que a direção de Pâmio bota as personagens para orbitarem e soltarem esses monossílabos. Ninguém se encontra, são zumbis, perdidos em algum resto de cenário de Eu Sou a Lenda, Extermínio, Madrugada dos Mortos ou Thriller (vai, exagerei).Na tradução do texto para a cena, nada de interlúdios maneiristas (aqueles em que toca uma música e o ator faz algum movimento, “expressando” a angústia de seu personagem e que geralmente acontecem para preencher um vazio na cena). Nada disso. Pâmio obedece o recurso de corte seco que Fraser propõe: uma espécie de Nelson Rodrigues (sempre ele) revisitado, flertando com um Brecht ora aqui, ora acolá. Existem muitos detalhes a serem olhados, como os objetos vermelhos, os tons acinzentados dos figurinos e o tom pastel de uma personagem em específico, mostrando ser alguém sem sentimentos resolvidos. Há também o suspense criado sobre a eterna questão “Quem matou Odete Roitman?“… ops, me confundi, a questão da peça é: quem é o serial killer? O elenco consegue manter esse clima de tensão e nos deixar realmente em dúvida.

Do lado do elenco, tudo se afina. A sintonia dos atores é muito grande e, apesar de se tratar de um elenco de 8 pessoas, a disparidade é mínima.Entretanto, o destaque fica por conta de aparições pequenas e leves, como a de Erika Altimeyer, como uma espécie de narradora viva-morta que conta lendas urbanas com gosto, humor, terror e sacanagem. Já Lívia Guerra, a transex (definamos assim), é a personagem mais centrada do texto. O senso comum aponta os transgêneros como pessoas perdidas, mas é aqui que a brincadeira se configura: a mais transgressora é a mais equilibrada. Tão equilibrada que chega a ser a mais “evoluída” – explico: saída de um gibi de X-Men, nossa Dra. Jean Grey, digo, a transex Benita pode ler mentes. Fina ironia.

Falta ainda uma afinação no tratamento dispensado pelos atores no manuseio dos acessórios cênicos. Por exemplo, a cerveja permanece sem peso, já vem aberta da geladeira e pode ser virada ao contrário, sem ninguém esboçar um susto ao imaginá-la despejando. Não pode. Além disso, a trilha sonora cobriu algumas vezes as vozes dos atores (deve ter sido um erro de estréia, na certa). Mas nada que uns ensaios não consertem. Não é nada de chamar a atenção. O que fica na cabeça é a poesia do texto e a energia da encenação. Destaque para a ótima cena da pizza em que as personagens comem e perdem seus olhares, como que pensando: “O que vai ser de nós agora?”.

Agora vamos à questão: o que é o amor? Muitos espetáculos versam sobre este tema e eu me pergunto: devemos nos preocupar em desvendá-lo ou simplesmente vivê-lo (se acharmos que estamos vivendo). Fraser responde: “a gente sabe”.

 www.bacante.com.br/revista/critica/amor-e-restos-humanos

 

  

 

Crítica | Ópera do Malandro por Sergio Salvia Coelho (Folha de São Paulo, sábado, 09 de julho de 2005)
img026Quinta-feira passada: com a devoção dos carteiros, o crítico contorna
uma deserta e gelada praça do Relógio no campus da USP na certeza de um
espetáculo cancelado por falta de público. Só bem perto que se revela o
improvável: uma pequena multidão se aglomera na porta.
      Faz sentido. Nesses dias em que desfilam cinismos na CPI dos Correios,
é preciso lavar a alma com essa mistura delicada de deboche e lirismo que é
"A Ópera do Malandro". A obra-prima teatral de Chico Buarque, de 1978, nunca
deixou de ser montada, mas andou se perdendo em "desconstruções" pedantes ou
sendo esterilizada por excessos comerciais. No teatro estudantil, a "Ópera"
está em casa. Essa turma 55 da Escola de Arte Dramática, em sua primeira
aparição pública, tem a oferecer sua energia contagiante, uma reserva de
personalidades a serem lapidadas, mas que recebem desde já uma massagem de
ego por uma platéia vibrante.
      O espetáculo é meticulosamente embalado, com direito a apoteoses de
teatro de revista, um ágil cenário de José de Anchieta e trocas de figurinos
além do que seria previsível com os R$ 1.000 que a produtora Bertha Heller
soube multiplicar. Conta também com uma afiada banda que garante o som ao
vivo e um projeto de luz belo e eficiente de Denílson Marques e Iacov
Hillel, um diretor que domina o musical como poucos.
      Confiando nas gargantas e nas pernas, que cumprem com molejo marcas e
coreografias precisas de Ana Maria Spyer, o elenco entra como a seleção,
confiando nos talentos individuais, cada qual brandindo seu cartão de
visitas.
      E funciona. Já na comissão de frente vem Lívia Guerra, todo o Brasil
descendo a ribalta, puxando um coro de malandros e prostitutas no qual cada
um sabe exatamente quem é e o que faz, com destaque para a Fichinha de Lívia
Camargo, que alinhava a peça. O aprumo faz com que Luís Roberto Soares
(delegado Chaves) e Sílvia Suzy (Vitória, a primeira-dama da corrupção)
superem a pouca idade para o papel, e se Alexandre Cruz, no papel central de
Duran, se apóia um pouco demais nos mesmos trejeitos, acaba remetendo a Zé
Trindade, o que não é mal para essa chanchada cult.
      Superam o esperado a Geni de Luciano Andrey, que fica na sombra até o
exuberante solo final, e o digno Max de Júlio Machado, malandro
expressionista. Érika Altimeyer surge como Lúcia, como um artilheiro que entra no segundo tempo, com o time ganhando de goleada, e marca seu gol.
      Cabe a Ana Maria Martins o momento inesquecível. Seu solo de
Terezinha, com direito a músicos em campo, é sem dúvida notável. Mas deixa
sua marca quando, como não quer nada, cantarola a marcha nupcial com todos
os trejeitos do musical da Broadway, deixando o teatro Abril despedaçado.
Muito deve vir ainda para essa turma, a aprendizagem da interiorização, da
elegância da invisibilidade a serviço de um texto com outras exigências. Mas
garantiram desde já lembranças privilegiadas dessas noites quentes da "Ópera
do Malandro".

www1.folha.uol.com.br/fsp/acontece/ac0907200501.htm